A violência contra a mulher permanece como uma das crises de direitos humanos mais persistentes e menos enfrentadas do planeta, de acordo com o novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados, que analisaram 168 países entre 2000 e 2023, expõem um quadro de lentidão no progresso e alertam para o alto número de vítimas em todo o mundo.
Quase uma em cada três mulheres no planeta, totalizando cerca de 840 milhões de pessoas, já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida. O relatório revela que, somente no último ano, 316 milhões de mulheres — o equivalente a 11% da população feminina com mais de 15 anos — foram agredidas por um parceiro íntimo. O avanço no combate a este tipo de violência é praticamente nulo, com a queda anual na violência doméstica sendo de apenas 0,2% nas últimas duas décadas.
Pela primeira vez, o levantamento da OMS incluiu a violência cometida por agressores que não são parceiros. O resultado aponta que 263 milhões de mulheres já sofreram violência sexual fora de um relacionamento íntimo, o que inclui casos de estupro.
Financiamento encolhe enquanto ameaças aumentam
O relatório da OMS destaca uma contradição perigosa no enfrentamento da violência de gênero: enquanto o volume de ameaças se mantém elevado, o financiamento global para a prevenção encolhe.
Em 2022, apenas 0,2% da ajuda global ao desenvolvimento foi destinada a programas de prevenção de violência contra a mulher. A previsão é de que essa porcentagem caia ainda mais até o ano de 2025.
A violência atinge as mulheres precocemente. No último ano analisado, 12,5 milhões de meninas entre 15 e 19 anos, representando 16% dessa faixa etária, foram vítimas de violência dentro de casa. O levantamento também reforça que a desigualdade socioeconômica e o contexto geográfico pesam, com países pobres e regiões de conflito registrando taxas de violência significativamente superiores à média mundial.
Peso da desigualdade racial no Brasil
No Dia da Consciência Negra, o cenário da violência contra a mulher no Brasil revela uma profunda desigualdade racial, conforme indicam os relatórios do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os dados apontam que pelo menos 65% das mulheres vítimas de feminicídio no Brasil eram negras.
Tanto no contexto nacional quanto global, a Organização Mundial da Saúde alerta que as estatísticas de violência podem estar subnotificadas. A subnotificação é consequência do estigma e do medo que envolvem o ato de denunciar as agressões.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirma que a violência contra mulheres é uma das injustiças mais antigas e disseminadas da humanidade. Ghebreyesus ressalta que “Nenhuma sociedade pode se considerar justa, segura ou saudável enquanto metade de sua população vive com medo”.
